As
cartas do Ti Manel começaram em 2008 com esta escrita pelo seu
sobrinho.
Era o tempo da caça às bruxas, leia-se, aos professores, por
gente de má fama...
Espero que esta o vá encontrar de boa saúde. Eu, podia estar melhor...
Estou escondido dos que me perseguem. Muitas vezes tenho de disfarçar
para não revelar aos meus concidadãos, que sou professor.Já pensei em mentir quando me perguntam o que faço na vida e dizer que sou tirador de macacos do nariz.
Quando me apanham, invento as mais variadas desculpas para justificar
por que tenho o desplante de pertencer aos 95% dos professores que ainda
conseguem fazer bom trabalho. Os mais violentos são os do Ministério
da... da... bom, adiante que agora não me lembro do nome.
E apesar
de me obrigarem a mudar de caminho com frequência, e de forma inesperada
- tal é a catadupa de circulares que anulam os decretos - tenho muita
dificuldade em explicar como é que ainda não pisei uma das muitas minas
que escondem no nosso percurso. Quando alguém me apanha, tenho de lhe
pedir desculpa por existir, para não se irar comigo.
Estou a pensar em emigrar para um país mais seguro para professores e descobri que um dos mais seguros é... o Iraque. Sim, não se ria, ti Manel. Não estou maluco, apesar de ser professor há muitos anos…
É verdade que quase todos os dias explodem carros-bomba e dia que não
voem 40 ou 50 pessoas, é um marasmo. Mas tenho ouvido com atenção os
noticiários e nunca ouvi que tivessem morrido professores, sobretudo em
serviço. Só soldados, polícias, políticos e os que estão nas bichas de
candidatos a soldados, polícias e políticos. Nada de profs.
Além disso, o Iraque é como o meu país – só os que não têm amor à vida é que vão para as bichas de candidatos a professor.
E mesmo que morressem 2 ou 3 por dia no Iraque- nós os professores
emigrantes - somos milhares, portanto... tenho grande hipótese de não
acertar na lotaria.
Também pensei em outro país seguro para profs – o
Irão. Sim... Pare lá de rir, ti Manel! O Irão é um país seguro porque o
seu grande timoneiro até disse que não há lá gays (*). Nem mesmo ele
próprio. E como sabes, ele é um homem de fé e muito determinado como o
nosso.E toda a gente sabe que um homem de fé não pode mentir. Já um determinado...
E na verdade, não vou estranhar a vida no Iraque ou no Irão. Lá, como aqui, o “aprender ou não aprender”, não é a questão...
(*) Mais uma semelhança com Portugal...Também ninguém é alegre.
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